segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Lixos e descobertas

Estou na reta final das minhas férias. Apenas mais uma semana até que eu volte à estressante rotina de trabalho. Certa melancolia toma conta de mim...

Em 2009 obtive diversos progressos. Encerrei o curso de graduação tecnológica (que não consigo ver com o mesmo orgulho de se encerrar uma verdadeira faculdade, mas que mesmo assim se trata de uma grande conquista), fechei a dívida ativa com o Ministério da Fazenda, limpei meu nome no SPC, paguei a dívida com a minha mãe (sobrou apenas dois parcelamento que fiz em nome dela - um herdado da compulsão e outro de uma nova conquista que menciono a seguir) e comprei um apartamento! Tudo lindo e belo com planilhas de despesas minuciosamente calculadas para todo o ano de 2010 e outras esboçadas para até 2013.

Tudo desabando! Não fiz o Enade e nem justifiquei, então não posso retirar meu diploma. Já fiz gastos grandes no cartão de crédito logo em seguida à limpeza do nome. Gastei TODO o dinheiro das férias, 13º, salário etc. em coisas secundárias quando tinha consciência de que este dinheiro extra era para pagamento da segunda parcela do meu AP. Peguei um empréstimo (outro) para pagar esta segunda parcela. Tornei a gastar este dinheiro. Paguei as despesas extras da compra de um carro que "forcei" minha mãe a fazer mesmo sabendo que não poderia fazê-lo. Estava preparada para gastar mais outros tantos na aquisição de uma carteira de motorista... Tanta coisa em tão pouco tempo. Tantas cifras detonadas em dias!

Tirei férias também da terapia: um mês ausente. Acho que isso associado ao fato da novidade de estar novamente ativa financeiramente. De poder realizar meus desejos com autonomia me subiu a cabeça.

Mas tive algumas poucas sortes também: comprei três livros escritos por Freud e estou lendo um deles chamado Fragmentos da Análise de um Case de Histeria, o qual me mostra de maneira assustadora como sou a perfeita histérica! Além disso, mesmo tendo me aborrecido profundamente com a atitude da minha mãe, tive a sorte dela cair na real e desfazer o negócio do carro, de forma a ter restituído o dinheiro que investi e de me conscientizar de que minha carteira de habilitação mais uma vez é secundária aos meus planos. Outra coisa interessante foi perceber que me empenhando e me planejando posso ter meu próprio carro da maneira que eu quiser, mas sem arrependimentos financeiros...

Enfim... Sei que me auto-diagnosticar como perfeita histérica não soa nada como fator de sorte súbita. Mesmo porque durante o tratamento com meu terapeuta eu já sabia deste diagnóstico. Mas é interessante e importante ver relatado um caso sob o ponto de vista do psicanalista. Entender alguns sintomas. Compreender certas atitudes... Só não imagino ainda a "cura" para a histeria. Enfim... Percebi que até a minha tosse inexplicável tem explicação psicanalítica, a qual, aliás, é mencionada repetidamente no livro. A aversão aos homens, a afonia, a animosidade com a mãe, a aproximação com o pai, os sonhos... Isso tudo vindo de um relato de uma menina de 18 anos no final do século passado!

Freud fala de lacunas que existem na memória para compreensão da doença... Sinceramente, conscientemente, não sei mais que lacuna poderia encontrar. Minhas sessões parecem mais um lamento repetitivo e superficial.

O engraçado é ter descoberto que até a escrita é algo nada original. Já tinha reparado há muito tempo que só escrevo quando estou triste ou angustiada. Dizem que escrevo bem e sinto que as palavras fluem mesmo que melancólica e aleatoriamente. E que mesmo desconexas, resultam num texto no mínimo curioso. Eis que me deparo com o seguinte parágrafo do livro:

"Lembrei-me de ter visto e ouvido tempos atrás, na clínica de Charcot, que nas pessoas que sofrem de mutismo histérico a escrita funcionava vicariamente em lugar da fala. Elas escreviam com maior fluência, mais depressa e melhor do que as outras ou elas mesmas anteriormente." - Freud, Sigmund; Fragmentos da Análise de um Caso de Histeria (O Caso Dora).

Mais uma vez me pasmo com o quanto nós, seres humanos, não temos nada de original. Somos animais e, como todos os animais, temos rotinas comportamentais. Não fugimos da reação instintiva simplesmente porque temos polegares. Nascemos, crescemos, amadurecemos, vivemos, procriamos, amamos, nos decepcionamos, superamos e morremos como quase todos os animais: de forma instintiva! Então porque não reagir de maneira semelhante mesmo com traumas distintos?

Engraçado que meu terapeuta sempre se refere ao tocante da minha histeria como inteligência (risos). Dentro do contexto do que foi relatado e discutido em cada sessão, não foram poucas as vezes que ouvi dele que pessoas sensíveis e inteligentes apresentavam muitos dos sintomas descritos no livro como histeria. Claro que ele não me disse isso e principalmente desta maneira. Mas percebo agora que todas as vezes que ele dizia isso era quando concluíamos algo comum ao que Freud ensaia neste livro sobre a histeria.

E não sei por que fiquei aliviada em ler sobre isso. Acho que pelo fato de ter praticamente virado as costas para o tratamento e visto o quanto eu regredi à minha volúpia infantil. Para variar, além da voracidade com a comida, agora tenho tosses que me parecem mais nervosas, dada a semelhança descrita por Freud com o caso de Dora. Aliás, outra premissa deste grande analista é que o "não sei" e o "acho que" se traduzem em "sim, eu sei!".

No fundo, sempre sabemos o que nos acontece, não é mesmo? Não é a toa que, como eu, muitas pacientes dizem "Eu percebi isso" ou "eu sei disso" logo após o analista expor seu pensamento. Sabemos consciente ou inconscientemente, mas sabemos!

Aproveitando, mesmo sabendo do quão longo ficará este post, PRECISO relatar meu sonho de hoje para não perdê-lo de mente. Pareceu curioso, tenebroso, satisfatório e macabro:

"Talvez por ter lido muitos livros sobre histórias fantasiosas de cavaleiros e dragões, e anões, e seres fantasiosos, sonhei que estava numa festa aparentemente medieval, na qual recebíamos um grupo de estrangeiros meio bárbaros muito alegremente. Enquanto eu e mais uma menina que estava comigo (creio que fosse a minha irmã) saíamos com um homem da cena e caminhávamos conversando até a tenda principal onde estaria o que pareciam os líderes de tal grupo, reparávamos que todas as mulheres e "meu povo" haviam sumido. Principalmente as mulheres. O homem com quem andávamos então negocia com o "líder do grupo" e consegue que recebamos o que seria pouco dinheiro em relação ao que tínhamos (éramos uma espécie de princesas bem afortunadas no sonho) além de nossa "liberdade" que, se me lembro bem, era condicionada à propriedade deste homem. Cabe dizer que o tal homem que nos acompanhava parecia um sábio mais velho... Bem mais velho! E que minha irmã fazia menção de protestar os valores que nos era dado visto que nós éramos donos da terra e das posses originalmente, porém, eu a silenciava e mandava que prosseguissem com a negociação ansiando nossa liberdade para longe deste grupo e temendo uma escravidão maior."

"A partir deste ponto nos encontrávamos, os três, perdidos próximos a um lago com crocodilos e várias criaturas, a maioria delas já mortas - inclusive homens enormes apodrecendo à beira do lago. Com a devastação que sofrera o local, pensávamos em pescar algo que estava na água, mas nosso 'guia', por assim dizer, nos instruía a não fazê-lo sob pena de sermos atacadas e devoradas pelos crocodilos. Eu passava por uma vaca morta e com a carne exposta pensando que tinha visto num canal tal qual a Discovery um apresentador instruindo a nunca comer carniças quando perdidos num deserto africano enquanto circundava o lago. Eis que nosso 'guia' menciona algo que sugere como única opção comer a carne do grande homem morto às margens do lago. Deste modo, prefiro então comer a carne da vaca que jazia ali perto."

"Numa reviravolta típica de sonhos, eu era uma ave que subia a um sobrado de uma casa perto onde pegaria a carne da tal vaca. Chegando lá encontro um homem deitado sobre uma cama como quem tivesse morrido ali dormindo. Se me lembro bem, penso em aproveitar a carne dele para nos alimentarmos, mas ele acorda e eu entro em pânico ao perceber que ainda há humanos vivos na região mesmo depois da posse do grupo bárbaro. Creio ter falado pra ele rapidamente que não aparecesse para não ser morto. Logo depois peguei um pouco da carne da vaca e voei ao local de origem para dar as noticias do humano vivo. Eu estava em pânico morrendo de medo dos conquistadores do lugar nos punir por termos falado com o tal homem."

"Uma reunião então é feita por um grupo de humanos que aparecessem vivos depois da descoberta do homem adormecido em seu leito. O medo impera no lugar no mesmo nível que o espírito de liberdade almeja ser conquistado. A reunião é para decidir sobre o ataque ou não aos bárbaros que, a esta altura, já apareciam no sonho como seres meio monstruosos liderados por um bicho papão enorme e aterrorizante" - bem infantil este ponto, não? - "Então alguém menciona que é desejo de algum grande cavaleiro - que creio ser chamado de Leão tal qual no livro das Crônicas de Nárnia - que lutemos por nossa liberdade. E quando alguém pergunta como ele sabe das vontades do Leão, surgem na ponta esquerda da platéia três grandes cavaleiros com máscaras e emblemas com o rosto de um leão incitando a luta. O povo então toma coragem e resolve lutar. Os três cavaleiros saem do local onde esta a multidão por um portão que lembra o da casa da nossa família paterna em Friburgo. Eu agora sou um destes cavaleiros e pergunto ao líder dos três por onde entraremos na batalha. O tal líder que parecia ser o rei daquela vila perdida diz que não entraremos. Continuamos então a trotar em direção oposta a da luta. Eu pego o telefone e começo a conversar com alguém que parece ser minha mãe ao telefone falando que estávamos fugindo da luta - eu acho que estava ao telefone. Esta parte do sonho me é confusa embora saiba que falava abertamente sobre o fato de fugirmos mesmo após incitar o povo a uma luta que certamente resultaria na morte daqueles homens."

"Não sei se por remorso ou pelo peso das minhas palavras o tal rei decide, então, voltar e lutar e procura o mostro principal do sonho que aparentemente hibernava tranquilamente sabendo do trono conquistado. Neste momento era eu então que passava a procurar o tal monstro morrendo de medo, mas ao mesmo tempo confiante de que ganharia, pois já tinha visto a cena da morte dele - Após acordar lembrei que a cena que me dava a certeza da vitoria no sonho era uma cena que eu tinha visto do filme Van Helsing quando o vampiro maior morre."

"Neste momento a minha figura se misturava a de uma velha que não sei dizer se era eu mesma ou se era outra pessoa que aparecia no sonho para ajudar. O que lembro é que esta velha golpeava o monstro de tal forma que ele saia de seu aposento menor, triste e sensivelmente abalado - chega a lembrar uma criança chorando se não fosse pela aparência negra como uma poça de piche desfigurada tal qual um mostro enorme que vai murchando. Quando ele percebe que estamos praticamente comemorando a vitória por esta reação dele, ele começa a rir de nós por pensarmos que poderíamos derrotá-lo. No entanto, acabamos derrotando-o com alguns golpes estranhos com uma tora muito grande de madeira - semelhante àquela que prendiam as mãos e a cabeça de prisioneiros muito antigamente vistos em filmes - na cabeça do mostro."
Creio que este final é que tenha dado a leve sensação gostosa que senti durante todo o dia. Algo que parecia uma vitória mesmo. Mas a noite foi atribulada de sonhos. Lembro de ter sonhado algo com Pietra. Se me lembro bem ela estava num carrinho de bebe e era roubada de mim. Mais uma vez o desespero não era total. Havia embutida a sensação da certeza de que a encontraria. Mas não lembro muitos detalhes destes sonhos. O que me vem a cabeça é apenas uma janela com grades semelhantes as que tinham na casa do meu falecido avo paterno, eu olhando de forma escondida por ela temendo ser vista e um carrinho de bebe aleatoriamente vagando na minha mente. Infelizmente este sonho eu não consegui reter na memória. Mas tenho certeza que seria algo revelador pela pressão no peito que sinto ao lembrar estas poucas coisas.
Aliás, terapeuticamente falando, como possa tornar útil um sonho que meu inconsciente usa para se comunicar comigo se o esqueço e fico apenas com a sensação de recalque no peito? Isso tem acontecido direto ultimamente! Sonho todas as noites! Todos os dias! - tenho dormido muito de dia - Mas não lembro nada útil pra contar.

Sobre o caso da desistência da aquisição do carro por parte da minha mãe, sei que foi a melhor decisão mas isso trouxe frustrações antigas: o fato dela sempre nos encher de sonhos que nunca são concretizados. Estou indiscutivelmente decepcionada e desapontada. Já estava me vendo dirigindo um C3... Como uma criança, estou aborrecida com a minha mãe e 'chorando' por dentro pela perda de mais deste sonho que me foi embutido sem uma permissão consciente. Com este episódio lembrei que desde meus 14 ou 15 anos sonho em ter um carro e dirigi-lo de forma independente. Tinha reprimido isso com a ideia de que depois de viver 31 anos sem carro, não seria mais necessário a esta altura... Aliado à violência no Rio, era a desculpa perfeita para abandonar uma meta juvenil que foi reacendida pela minha mãe de maneira tão frustrante. Oras... Mais uma vez me revelo uma histérica!

Quem sabe mando este texto pro meu terapeuta para ver o que ele diz a respeito, não?

Enfim, lugar de lixo é na lixeira! Pode recolher! ;-)