quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Impunidade também se ensina na escola

Nada como os últimos acontecimentos que vem acontecendo no Rio de Janeiro para nos fazer repensar sobre o conceito “responsabilidade social”. Recentemente tive uma breve discussão com um conhecido que insistia em dizer que a violência e a criminalidade do Rio são responsabilidades restritas ao estado e ao governo. Não que eu discorde totalmente deste ponto de vista, mas desde que vi o vídeo do Rodrigo Pimentel divulgado pelo O Globo, comecei a refletir sobre nossa responsabilidade como indivíduo para com a nossa sociedade e lancei esta reflexão sobre o meu círculo de amizades.

Eis que durante toda a turbulência vivida pela sociedade carioca atualmente, acontecimentos pontuais vieram reforçar a questão: há cerca de duas semanas comprei um aparelho celular para minha filha com o dinheiro que ela vinha juntando há meses. Na euforia do brinquedo novo, ela decidiu levar o aparelho para a escola e, sabendo da proibição sobre o uso do mesmo nas dependências do colégio, seguiu meu conselho a risca, mantendo o aparelho desligado na bolsa. Infelizmente isso não foi o suficiente, pois ao final da aula ela percebeu haviam furtado o aparelho. Apesar do rebuliço provocado pelo seu desespero ao constatar o fato, pouco pode ser feito, já que quase todos da escola já tinham ido embora. Uma busca foi feita onde puderam e onde se lembraram de fazer. Chamadas foram feitas em vão para o celular, já que o mesmo passou a manhã inteira desligada. Depois de um pedido meu, um discreto cartaz que eu mesma fiz foi colocado no portão da escola solicitando gentilmente a devolução do celular na secretaria, “caso alguém o tivesse encontrado”. E assunto encerrado. Morremos no prejuízo.

Menos de uma semana mais tarde, uma colega de sala da minha filha teve o mesmo infeliz destino: ganhou um aparelho, levou-o para a escola, desligou-o ao entrar para aula e, no fim... Mais um celular furtado na mesma sala de aula.

Se uma ocorrência não foi o bastante, duas foram suficientes para trazer a tona um histórico de coisas desaparecendo sem que nenhuma providência tivesse sido tomada pela instituição de ensino. Após estes eventos, soubemos que outros dois aparelhos também haviam sido furtados enquanto as crianças estavam sob tutela do colégio, com a sorte de ao menos um deles ter sido misteriosamente devolvido três dias após o sumiço. Fora os episódios de objetos de menor valor como álbum de figurinhas e dinheiro do lanche...

Mas então, vem o que foi para mim a pior parte: além de nada ter sido feito por parte da escola para reforçar a segurança dos alunos e professores, além de nenhum bilhete ter sido enviado aos pais e responsáveis comunicando na agenda sobre os desaparecimentos de objetos pessoais no estabelecimento (ao menos para avisar aos pais desinformados que por ventura não tenham sabido de tais ocorrências para que os mesmos pudessem observar o comportamento dos filhos)... Além disso tudo, a escola ainda teve o disparate de enviar um bilhete aos pais comunicando, sim, que é determinação contratual da escola que nenhum aluno deve utilizar, tampouco portar, objetos de valores emocionais, incluindo aparelhos celulares. Ainda foi dito que estudos comprovam ser desnecessário o uso de tais aparelhos por parte das crianças em âmbito escolar e que os pais deveriam dar o exemplo.

Alguma menção no bilhete sobre a série de desaparecimentos na escola? Nenhum. Omissão total!

Agora, supondo que o responsável pelos furtos seja uma criança, vamos tentar nos colocar no lugar dela: O que você pensaria se depois de furtar no mínimo duas vezes em uma semana – não sendo pego, não tendo seus pais alertas, não tendo nenhuma fiscalização mais rigorosa da escola – você ainda lesse um aviso destes?!?

Várias perguntas me passam à mente:
1)      O que pensaria a coordenadora e/ou o dono da escola se tivessem seus carros roubados e queimados durante os eventos que aconteceram recentemente no Rio e ouvisse do governo a simples resposta “não nos responsabilizamos por pertences pessoais, já que avisamos a todos que não saíssem de casa. Não havia necessidade de utilizar carro no rio – pegasse um ônibus!”?

2)      Uma vez impune aos seus crimes, sem sequer ter a chance de uma maior atenção paterna ou mesmo repreensão e ainda por cima tendo acesso a um bilhete que só dá razão ao criminoso – já que quem errou foram os pais que permitiram o porte dos aparelhos – que ser humano esta criança se tornará? Isso, claro, se foi realmente uma criança, ao invés de um funcionário da própria escola...

3)      Será que a simples omissão da escola ao fato não gera conseqüências para a sociedade?

4)      E se um dos professores tiver seu celular furtado? Eles também vão receber circulares proibindo a posse destes aparelhos? Ou será que isso já está em contrato?

5)      Será mesmo que com toda a violência noticiada e conhecida no estado do Rio de Janeiro, o porte de aparelhos celulares não é necessário?

6)      Será que esta clausula contratual tem valor?

7)      Será que é realmente mais lucrativo se isentar da culpa respaldada por contratos do que agir preventivamente? Porque se algo acontecer com a minha filha durante o trajeto da escola para casa e eu não tiver como me comunicar com ela simplesmente por uma proibição infundada da escola, certamente eu responsabilizarei a instituição de ensino!

8)      Nós, pais, que somos obrigados a aceitar o contrato escolar se quisermos usufruir da qualidade de ensino, não podemos mesmo fazer nada em casos como este?

9)      O que foi feito com toda aquela mensagem sobre responsabilidade social passada pela escola ao longo destes anos?

Até agora só uma resposta aparece: Impunidade. Isso também se ensina na escola!

3 comentários:

Rafael disse...

O povo é mal educado, os políticos, os policiais vem do povo.

Me parece ser o velho jogo do "empurra". "A culpa é sempre das outras pessoas, nunca minha."

Fran disse...

Revoltante, não?

Rafael disse...

revoltante é pouco. essa mentalidade de eu estou sempre certo e o problema é sempre dos outros me irrita. o povo por ai é muito egoísta e hipócrita. :(